segunda-feira, 14 de março de 2016

MINHA VISÃO SOBRE TECNOLOGIA & SOCIEDADE

Fonte da imagem: Site Pensador

A globalização mudou a concepção de espaço e tempo ao retirar fronteiras e redesenhar espaços sociais onde, mesmo sem sentir, “o tempo voa e escorre pelas mãos”, como diz Lulu Santos na sua bela canção Tempos Modernos.

Para quem, como eu, nasceu e viveu uma infância no auge dos extremos e das exceções, com um pouquinho de observação terá isso muito claro no momento atual. Afinal de contas, tive uma infância muito similar a do menino que descrevo nessa crônica postada no blog Canta Minas (clique no link para ler). Ao contrário dessa criança que vivia no mundo lúdico propiciado pelas brincadeiras no ambiente do fundo de um quintal, o que se vê no mundo de hoje são crianças e adolescentes usufruírem cada vez mais precocemente dos bens tecnológicos que influenciam na conduta e nas relações sociais.

No meu tempo criança, embora não seja tão saudosista como cantava Ataulfo Alves e a despeito de ser uma bela canção, os bens tecnológicos eram coletivos e muito raros para a maioria das pessoas. Eles basicamente se resumiam na aquisição de liquidificador, geladeira, fogão a gás, enceradeira, máquina de lavar enquanto o sonho de consumo da maioria era possuir televisão e uma linha telefônica, coisas somente possíveis para os afortunados. Convivi com o esfregão de encerar, fogão a lenha, a conservação por períodos de até seis meses das carnes cozidas e guardadas em latas de banha de porco, sem contar outras apetitosas delícias culinárias livres de conservantes e muitas outras formas de se viver cotidianamente sem a presença da tecnologia. 
Fonte: Guia de Estudos Tecnologia e Sociedade (UNIS)
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Em contrapartida, principalmente nos últimos vinte anos, os bens tecnológicos têm se tornado cada vez mais objetos individuais e portáteis, de fácil manuseio e com uma tecnologia digital que não era imaginável pela maioria das pessoas. E o que isso muda na relação com o mundo?


É notória a importância da tecnologia na cura de doenças, no desenvolvimento de novas técnicas na agricultura que possibilitam uma maior produção de alimentos para um mundo cada vez mais habitado, nos meios de transporte e, principalmente, junto aos meios de comunicação que possibilita o encurtamento das distâncias dado a velocidade em que as interações humanas se processam por meio dos aparelhos cada vez mais ultramodernos. Sem contar a variedade e quantidade de informações disponíveis para a maioria das pessoas através da internet, coisa que um pouco antes do fim do século passado se restringia aos jornais e revistas, rádio e tv.


No entanto, no que concerne ao uso de aparelhos tecnológicos e das mídias sociais disponibilizadas na rede mundial, percebe-se em diversas pessoas que evitam o uso desses bens e em outros que os incorporaram de tal maneira ao seu modus vivendi  fatalmente levando aos extremos: a resistência ou o uso indiscriminado e sem limites da tecnologia acessível.

Sabe-se que a maioria das pessoas utiliza a tecnologia muito mais para o entretenimento como jogos, bate-papos virtuais, lazer em detrimento da pesquisa, do acesso ao conhecimento através de sites que disponibilizam livros, filmes, sites que oferecem cursos onde se aprende línguas, tocar instrumentos musicais e até mesmo museus virtuais. Ou seja, também pode-se ter a tecnologia oferecida aliada às necessidades sociais, de estudo e  profissionais.

Outras mudanças incontestáveis no uso da tecnologia são as relações pessoais que se tornam, na visão sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2000), cada vez mais líquidas. A expressão “modernidade líquida” cunhada por ele, aponta para a mudança da modernidade denominada “sólida” para "líquida", pois tudo atualmente tem se tornado “volátil, as relações humanas não são mais tangíveis, e a vida em conjunto (familiar, casal, amizade, afinidades políticas, etc) é cada vez mais inconsistente”[1].

Aliada às relações voláteis propiciadas pela globalização dos meios midiáticos e redes sociais está em jogo a segurança de informações e de dados e a invasão de privacidade porque o uso indiscriminado pode levar a este risco, embora cada vez mais a tendência seja que a sociedade de uma maneira geral se insira nesse universo.

Particularmente, devido ter convivido desde a infância e, até hoje, com as pessoas simples do Vale do Jequitinhonha que trazem ainda alguns saberes e fazeres da cultura popular tenho conseguido fazer a “ponte” entre a tecnologia “rudimentar” e a alta tecnologia sem maiores traumas. Busco utilizar os recursos oferecidos pela tecnologia como aliados ao meu trabalho profissional, seja como radialista, músico ou em pesquisas usufruindo de aparelhos tecnológicos como celular, tablet, notebook, computador, aparelhos de gravação digital de imagens e de áudio, bem como das principais ferramentas digitais como internet, blogs, youtube, soundclouds, myspace, facebook, whatsapp embora com relação a este último e o twitter, eu tenha uma certa resistência dado à rigorosa “exigência” em querer respostas imediatas pela maioria dos usuários.

Finalmente, na minha visão acredito que no mundo atual é imprescindível o uso da tecnologia de ponta para interagir na “aldeia global” cada vez mais entrecruzando os espaços de relação e convivência. No entanto, creio haver necessidade de sabermos dosar o uso dessas tecnologias a fim de não perdermos de vista a relação cotidiana com as pessoas e a natureza. Muitas vezes deixamos de conviver com as pessoas próximas, no ambiente familiar ou mesmo de trabalho, enquanto ficamos conectados com pessoas distantes e até mesmo em outros lugares do mundo. O nível de dependência tecnológica  
Fonte: Site G1 Cinema
é tão grande que muitas vezes perdemos a oportunidade de usufruir da emoção de um show musical ou uma partida de futebol, cuja cena não é apreciada diretamente pelo olho humano, mas pelo “olho” da câmara do celular ou do Smartphone que está nas mãos filmando para ser postado imediatamente nas redes sociais. O melhor exemplo foi a foto da idosa que viralizou nas redes sociais (foto ao lado), única pessoa que não está com um aparelho de celular nas mãos. Esta conduta nos faz perder algumas conexões importantes com o como o aqui e agora e segundo alguns estudos isto tem feito com que a capacidade de memória humana esteja cada vez mais comprometida.

Assim sendo, permitam-me utilizar de uma reflexão de um estudioso do espaço e do tempo. Segundo Hall (2005, pág. 72)[2], “os lugares permanecem fixos: é neles que temos ‘raízes’. Entretanto, o espaço pode ser cruzado num piscar de olhos – por avião a jato, por fax ou por satélite”.  Ou, se ainda o desejarem, até no lombo de um burro para o desfrute e prazer de uma paisagem natural.




[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
[2] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2005.